30/11/2018 – A biodiversidade dos biomas brasileiros representa um diferencial para criar pratos únicos na gastronomia. A valorização das espécies nativas do Brasil para alimentação e nutrição, tais como os méis nativos e as baunilhas, ganha um importante aliado com o termo geral de cooperação assinado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto ATÁ nesta segunda (26), em Brasília (DF). O acordo, assinado pelo presidente da Embrapa Sebastião Barbosa durante solenidade em homenagem aos 44 anos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, prevê estabelecer um regulamento técnico de identidade e qualidade para o mel produzido por espécies de abelhas-sem-ferrão do Brasil, e ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionadas às espécies de baunilhas brasileiras visando o estabelecimento e adequação de um sistema de produção.

“Existe hoje uma tendência crescente de consumo de produtos naturais e mais saudáveis, o que abre oportunidades para valorizar a sociobiodiversidade brasileira e estabelecer novas fontes de renda para a agricultura tradicional e de base familiar. A parceria com o Instituto ATÁ proporciona uma nova dimensão de acesso ao consumidor, aproxima o consumidor do produtor e estabelece novas percepções de valor e uso dos alimentos”, salienta Cleber Soares, diretor de inovação e tecnologia da Embrapa.

Baunilhas do Brasil

De acordo com dados do Observatory of Economic Complexity, do MIT, a ilha de Madagascar lidera o comércio mundial de baunilha com US$531 milhões exportados em 2017. Indonesia (US$113 mi), Canada (US$34,7 mi), França (US$34,6 mi) e Alemanha (US$31,7 mi) completam o ranking dos cinco maiores exportadores de baunilha. Para se ter ideia da demanda mundial pelas favas de baunilha, apenas os EUA importaram, em 2017, US$326 milhões, montante que representa 38% das importações globais de baunilha.

O valor das favas de baunilha é tanto que, em Madagascar, país que possui 62% da fatia do mercado global, os pequenos agricultores precisam de segurança armada para proteger os cultivos. No Brasil, os pesquisadores já identificaram quatro espécies com características olfativas de elevado potencial (Vanilla bahiana; V. chamissonis; V. palmarum; V. pompona). “Serão realizadas prospecções de populações naturais destas espécies em suas áreas de ocorrência, baseado em distribuições geográficas verificadas em dados de herbário (SpeciesLink). Tendo em vista sua ampla distribuição, serão priorizados locais de maior abundância das espécies, sendo definida uma área para cada bioma de ocorrência”, explica Luiz Camargo, gerente do Instituto ATÁ.

“A indústria de alimentos vem enfrentando problemas com uso de aromas artificiais, especialmente o de baunilha, devido à sua grande procura. Estudos referentes à produção em escala das baunilhas nativas são de extrema importância para o desenvolvimento sustentável desta atividade”, comenta Cleber Soares.

A produção de aromas de plantas nativas pode proporcionar o desenvolvimento de novos produtos para a agroindústria, adequada às condições climáticas locais e aos pequenos produtores. Para consolidar um sistema de produção de baunilhas nativas adaptado às condições brasileiras, a Embrapa e o Instituto ATÁ irão mapear e coletar materiais de baunilhas brasileiras, com uso de georreferenciamento, para montar um banco de germoplasma, que servirá como suporte para as atividades a serem desenvolvidas. A atuação conjunta também prevê a capacitação de agricultores e comunidades tradicionais sobre manejo e cultivo da baunilha.

“Elaborar um banco de dados com informação taxonômica, olfativa e química dos acessos caracterizados, avaliando seu potencial produtivo e de mercado, é um avanço importante para o Brasil suprir a demanda de mercado existente sobre baunilhas”, comenta o pesquisador Roberto Vieira, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília- DF).

Mel nativo

Para fortalecer a cadeia de produção do mel de abelhas-sem-ferrão, a Embrapa Meio Norte (Teresina – PI), em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo Baiano, irá trabalhar na caracterização físico-química das amostras de mel destas abelhas; organização e atualização da base de dados; e proposição de regulamento de boas práticas de produção e de identidade e qualidade do mel de abelhas-sem-ferrão.

O mel das abelhas-sem-ferrão possui características físico, química e sensoriais diferenciadas, quando se compara ao mel das abelhas africanizadas, facilmente encontrado nos mercados. Atualmente a legislação brasileira de identidade e qualidade do mel não é adequada ao produto destas abelhas, sendo necessário um esforço conjunto para normatização deste produto. “Os méis das abelhas nativas e seus subprodutos têm amplo mercado, tanto interno quanto para fins de exportação, e fortalecer a produção também significa ampliar as oportunidades de emprego e renda em regiões como o Semiárido nordestino. Estas ações podem ainda se somar a outras em andamento, como, por exemplo, a Rota do Mel conduzida pelo Ministério da Integração Nacional em seu polo de Jandaíra/RN”, avalia a pesquisadora Fábia Pereira, da Embrapa Meio-Norte.

De acordo com Cleber Soares, os dois temas podem proporcionar o desenvolvimento de novos produtos para a agroindústria, maior estabilidade de produção, visando manter a escala de produção, e contribuem para diversificar a renda dos pequenos produtores familiares e comunidades tradicionais. “Com o desenvolvimento dessas cadeias, é possível estabelecer os parâmetros para o desenvolvimento sustentável destas atividades”, comenta.

Por; Gustavo Porpino/ Foto reprodução cpt